Redação dissertativa-argumentativa e dissertativa-expositiva: qual é a diferença?

por | jun 23, 2022

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A maioria dos alunos acha que dissertação argumentativa é a única dissertação que existe. Mas estão enganados e este artigo vai esclarecer isso. 

Vamos começar do começo: você sabe o que é dissertar? Dissertar é falar sobre algo. Quando você está falando ou escrevendo sobre um assunto, está dissertando! Quando está falando ou escrevendo sobre um assunto você está fazendo uma dissertação

 

Os 2 tipos de dissertação que existem

 

A chamada dissertação-argumentativa é um tipo de dissertação. Só um tipo! Sim, porque existem dois tipos de dissertação: 

  • A dissertação argumentativa: em que você dá uma opinião sua sobre um assunto e explica por que pensa daquele jeito, justifica sua opinião. Tem esta sequência:
como é a dissertação argumentativa: TESE > JUSTIFICATIVA DA TESE > CONCLUSÃO

Só para lembrar, tese e opinião é a mesma coisa. Dissertação argumentativa sempre tem opinião de quem escreve.

  • A dissertação expositiva:  em que você aborda um fato, em que você o expõe de acordo como prefere, como se ele estivesse numa tela, mas não dá seu parecer, sua opinião. A sequência dela é diferente, veja:

Lembra quando você apresentava um trabalho na sua sala de aula, com cartazes ou slides? Você estava fazendo uma exposição. A dissertação expositiva é a mesma coisa!

Ela é pouco usada nos vestibulares, mas é bom conhecer, porque boa parte das provas dissertativas de geografia, filosofia, história, sociologia seguem o padrão da dissertação expositiva! Assim você já sabe o que fazer nas questões dissertativas de humanas. 

Como você deve ter notado, toda dissertação tem introdução + desenvolvimento + conclusão. Apenas que cada uma dessas 3 partes tem um conteúdo diferente nos 2 tipos de dissertação, e na introdução o candidato já define qual tipo está escrevendo.

 

Escolhendo a dissertação certa para o Enem

 

Pensando no Enem, agora: qual desses dois tipos você deve usar na hora da prova?

Você deve usar a dissertação argumentativa. Inclusive está lá no manual do Enem, bem claro, que eles querem uma redação argumentativa. Portanto no Enem você deve dar sua opinião e justificar sua opinião. Não vale só expor sem mostrar o que você pensa do caso.

E por que o Enem escolheu esse tipo de dissertação?

O ato de um aluno dar a opinião e justificá-la ajuda a avaliar a maturidade do aluno. É que a dissertação argumentativa exige mais do candidato (você já sentiu isso?) do que uma expositiva exigiria, inclusive exige mais capacidade de raciocínio lógico. Confira a importância da estrutura da dissertação argumentativa para o Enem:

 

https://www.youtube.com/watch?v=K325yTLXZ0w

 

Vamos a exemplos de redações 1000 do Enem para analisarmos se foram iniciadas como dissertação argumentativa ou expositiva.

 

Exemplo 1

 

Você percebe que na seguinte introdução existe uma opinião?

(…) Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente a intolerância religiosa é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito religioso que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.

A opinião (tese) do aluno é clara: o preconceito religioso é causado por insuficiência das leis e mentalidade social que praticamente não muda. Então este candidato estava iniciando uma redação dissertativa-argumentativa corretamente – acertou em cheio! 

Percebeu como essa afirmação dele pode ser discutida? Isso mostra que se trata de opinião de verdade! Faça esse teste na sua redação – opinião legítima é aquela que pode ser discutida!

 

Exemplo 2

 

Verifique se a tese deste candidato é tese mesmo ou é um simples fato:

(…) Embora o cinema tenha se popularizado, posteriormente, como entretenimento, nota-se, na contemporaneidade, a sua limitação social, em virtude do discurso elitizado que o compõe e da falta de acesso por parte da população. Essa visão negativa pode ser significativamente minimizada, desde que acompanhada da desconstrução coletiva, junto à redução do custo do ingresso para a maior acessibilidade.

É tese sim! Ela é discutível, alguém pode ter opinião diferente. Começou bem a redação dissertativa-argumentativa.

 

Exemplo 3

 

Faça o teste com este trecho – é uma tese ou um fato?

(…) Não distante da ficção, nos dias atuais, existem algoritmos especiais ligados em filtrar informações de acordo com a atividade “online” do cidadão. Por isso, torna-se necessário o debate acerca da manipulação comportamental do usuário pelo controle de dados na internet.

Este é um caso curioso: o aluno não deu sua opinião, ele deu um fato. Não há o que discutir sobre o que ele diz. Isso acontece quando o aluno não tem condições de opinar sobre o tema, porque só especialistas conseguiriam. Lembra-se do tema da prova de 2017, “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”?

Um educador de alunos com necessidades especiais conseguiria opinar sobre o assunto, porque ele é um especialista, mas foi muito difícil para adolescentes recém-saídos do ensino médio dar uma opinião verdadeira sobre o caso! 

Agora você entende por que muitas redações boas do Enem têm teses que não são bem teses. Tudo bem, o Enem aceita essa dificuldade inicial, mas nesse caso o aluno precisa saber incluir seu parecer, sua opinião em algum fato que ele cite no desenvolvimento, caso contrário terá escrito uma dissertação expositiva! Ele afetaria seriamente a competência 2.

Note como esta introdução de redação nota 1000 daquela época tem “tese”  que não é bem a opinião do aluno, e sim um fato:

A formação educacional de surdos encontra, no Brasil, uma série de empecilhos. Essa tese pode ser comprovada por meio de dados divulgados pelo Inep, os quais apontam que o número de surdos matriculados em instituições de educação básica tem diminuído ao longo dos últimos anos. Nesse sentido, algo deve ser feito para alterar essa situação, uma vez que milhares de surdos de todo o país têm o seu direito à educação vilipendiado, confrontando, portanto, a Constituição Cidadã de 1988, que assegura a educação como um direito social de todo o cidadão brasileiro.

Para o Enem, portanto, é possível dar um fato em vez de tese na introdução, desde que você não se esconda atrás de citações, fatos: mostre de alguma forma como se sente com relação ao que está dizendo. Quer fazer um teste? Escolha um tema em nosso blog, e envie sua redação. Vamos ver se você consegue fazer uma dissertação argumentativa de verdade. 

 

Margarete Pulido é redatora e professora pela USP há mais de 30 anos, e é especializada em desbloqueio de escrita. Atualmente também cuida de seu próprio blog, escrevacertoblog.wordpress.com.

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