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Tema: Os empecilhos da doação de sangue no Brasil
Em meados do século XIX, em "20000 Léguas Submarinas", Júlio Verner vislumbrava um futuro que se desenhava - utópico e otimista como Thomas Morus havia sonhado séculos antes - uma sociedade moderna, evoluída, mergulhada nas descobertas e na esperança. Contemporaneamente, entretanto, as projeções idealizadas pelo francês, na realidade brasileira, se esvaíram nas páginas da história, e a dificuldade na doação de sangue mostra-se uma realidade inegável. Com isso, a problemática persiste interpenetrada na vivência do país, como produto da indiligência do Estado e da compactação da sociedade.
É primordial elencar, sob a ótica sociopolítica, que a persistência do problema é fomentada pela negligência do poder público. Esse cenário se constrói em decorrência da omissão do Estado em oferecer direitos básicos de qualidade a toda população, abstendo-se de seu dever constitucional. No entanto, mesmo que existam campanhas, que ajudaram a aumentar, expressivamente, o quantidade de doações de sangue, o Governo ainda mantém essa pauta secundarizada, pondo, assim, a população à margem dos direitos instituídos - realidade que desconstrói de modo marcante o cenário de otimismo, que outrora Júlio Verner projetou. Contudo, negar isso a população é infringir o direito a saúde, assegurado pelo Capitulo II da Constituição. Desse modo, é imprescindível que os órgãos estatais efetivem suas funções.
Ademais, em "A Microfísica do Poder", o sociólogo francês Michael Foucault, a partir do conceito de "Disciplina", defende que a sociedade e as ideologias impostas trabalham conjuntamente a fim de criarem um corpo social passivo e resignado, por meio de coerções introjetadas no sujeito. Indubitavelmente, o baixo percentual de doação de sangue no Brasil, no atual panorama social, arquiteta-se como subproduto da compactuação da sociedade. Isso porque, nas mínimas expressões, relevante parcela da população reproduz em suas ações cotidianas o medo, desinteresse e a ignorância. De outra parte, muitos, por descrença, não consideram a viabilidades transformação desse cenário - analogamente ao que Foucault afirmava em sua base teórica. Dessa maneira, por silenciamento e reprodução ideologia, os empecilhos para a doação de sangue perpetuam-se, fazendo vítimas físicas e simbólicas todos os anos.
A incapacidade do Estado, em paralelo ao consentimento do corpo social são, portanto, as causas diretas desse entrave no Brasil. Dessa forma, a fim de estimular a doação de sangue, e construir, nas mínimas expressões, uma sociedade pautada na saúde, o Poder Executivo Federal, em conjunto aos governos Estaduais e Municipais, deve instaurar - a partir de expressivos esforços operacionais e orçamentários - políticas públicas de fomento a essa prática, por meio de palestras nos ambientes estudantis, distribuição de cartilhas e campanhas com amplo apoio midiático, a fim de explicar e expor todo o procedimento aos doadores. Consequentemente, com o alcance e a eficiência dessas ações, o futuro otimista previsto por Verner será uma realidade.
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