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Preconceito linguístico

  Com a colonização brasileira, a partir do século XVI, a língua tupi mesclou-se a língua portuguesa colonizadora originando um novo idioma: a língua-brasílica. Amplamente utilizada em todo território, foi apenas no século XVIII que seu uso declinou, a partir da proibição decretada por Marquês de Pombal, que oficializou o português normativo como única língua do Brasil. Analogamente, tantos anos depois, a discriminação com a variedade de falas no território nacional ainda é extremamente presente e caracteriza um sério problema a ser enfrentado: o preconceito linguístico. Nesse sentido, a supervalorização da norma-padrão faz da língua um instrumento de dominação, o que perpetua essa conjuntura. 


   É importante analisar, primeiramente, que o enaltecimento da norma culta, feito pelos meios midiáticos e pelas instituições educacionais, favorece o pensamento social de que existe apenas uma maneira correta de se expressar: aquela que segue, rigorosamente, as regras gramaticais. Sob esse viés, Marcos Bagno, filólogo e linguista brasileiro, em sua obra “Preconceito Linguístico: o que é e como se faz”, afirma que não há certo ou errado quando se trata da comunicação, existe apenas o adequado e inadequado referente a um contexto. Dessa forma, é incoerente exigir que, em um país continental, de muitas regiões e culturas, haja uma homogeneidade da língua - o que ignora a formação híbrida da nação e, também, os distúrbios de fala - quando, ao invés disso, deveria prevalecer a ideia de que o importante é o entendimento e a compreensão da mensagem partilhada entre emissor e receptor. 


   Além disso, faz-se relevante observar que, muitas vezes, valorizar a norma padrão em detrimento de outros falares cria um ambiente de hierarquia linguística, que promove um mecanismo de dominação social. Nesse seguimento, Pierre Bourdieu, sociólogo francês, afirmava, em seus estudos sobre o “capital cultural”, que alguns conhecimentos são mais valorizados socialmente, resultado de uma estrutura conservadora, o que leva um estrato da sociedade a ter controle sobre outro, favorecendo a “violência simbólica” - legitimação da dominação de forma mais sutil do que pelo uso da força. À vista disso, permanecer com tal crença promove a marginalização e a ridicularização de grupos sociais, fato que pode ser percebido, por exemplo, nas telenovelas brasileiras em que, geralmente, a população nordestina é desmoralizada com representações discriminatórias do seu dialeto, de forma a parecerem “ignorantes”. 


   Portanto, é inconcebível que a sociedade verde e amarela continue perpetuando o preconceito linguístico em seu cotidiano. Por isso, é fundamental que o Ministério da Cidadania, em parceria com o Ministério da Educação, coloque em vigor a campanha “Falares do Brasil”, com a finalidade de reduzir a discriminação e divulgar a importância da liberdade de dialeto. Por esse motivo, o tema deverá ser implementado na BNCC, estando presente desde as séries iniciais para promover o debate em sala de aula e a conscientização das crianças e jovens. Outrossim, a campanha deverá garantir o direito das vítimas e sua proteção, o que será feito por meio da criação de leis específicas. Somente assim superaremos, enfim, exemplos tão tristes como o de Pombal e escreveremos uma história de inclusão e pluralidade. 

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