O CUPOM VOUPASSAR35 É VÁLIDO POR: dias horas minutos segundos

Preconceito linguístico

Na antiguidade, o legislador ateniense Drácon ganha destaque ao fazer com que as leis deixassem de ser orais e passassem a ser escritas, promovendo assim, o maior controle populacional diante as manipulações que a elite detinha. Paralelo a esse cenário, no Brasil atual, o escritor Maurizzio Gnerre afirma que ao mesmo tempo que Constituição garante igualdade de direito a todos, o documento é lido e entendido por poucos, comprovando que, assim como na Grécia Antiga, a lei e a sociedade são favoráveis àqueles que detém o controle das palavras. Dessa forma, é preciso discutir acerca da desigualdade e do preconceito gerados a partir das variações linguísticas no país.
O uso restrito da norma culta padrão nos mais diversos mecanismos e instituições brasileiros é uma realidade que ilustra a sobreposição da igualdade sobre a equidade. Isso pois, além de não raro negligenciar a existência da língua como constantemente mutável, fatores como idade, condição financeira, grau educativo, regionalidade e cultura são deixados de lado na construção de diversas formas comunicativas. Segundo o filólogo brasileiro Evanildo Bechara, "deveríamos ser poliglotas em nossa língua". No entanto, o que se vê nas escolas é a indução de uma aprendizagem "mecânica", que se limita à divisão do português em coloquial e padrão, ao passo que produz profissionais e pessoas limitadas às adaptações necessárias ao "poliglotismo brasileiro". Com efeito, seja na composição de documentos, ou em ambientes como fóruns, empresas e hospitais, o uso de jargões e palavras rebuscadas é predominante e estabelece um ideal de superioridade comunicativa. Essa realidade impõe limitação à autonomia pessoal, constrange o diferente e favorece grupos minoritários ao estabelecer a desigualdade dentro da isonomia da lei.
Além disso, a discriminação atua como ideia arcáica de que o português falado em todo território deve ser o mesmo. Se em 1922 o movimento Modernista tinha o intuito de reafirmar a identidade e independência brasileira através da contribuição dos diferentes elementos que as compunham, entre eles a língua, hoje em dia existe um retrocesso, uma vez que tais distinções convivem em desrespeito. Nesse sentido, sotaques são muitas vezes tratados de forma cômica e perjorativa; pessoas com menor escolaridade são inferiorizadas ou humilhadas ao falarem; gírias e modismos sobrepõem-se ao tradicional, que é visto como atraso. Logo, a banalização desses episódios reflete a ausência de humanismo e de valorização da multiplicidade linguística brasileira, que é fruto da colonização e miscigenação histórica.
Para que a língua portuguesa seja valorizada em sua complexidade e respeitada por suas características ao mesmo tempo que atende com equidade seus falantes, é necessário que o Ministério da Educação promova ações que reformulem o ensino das linguagens na escola. Isso pode ser feito através de capacitação dos professores com cursos à distância, que incentivem variadas formas de leituras para serem trabalhadas em sala de aula, desde poemas, depoimentos e letras de músicas como o rap e o forró, por exemplo, a fim de desconstruir padrões preconceituosos e formar indivíduos aptos. Os cursos também devem ficar disponíveis a profissionais que queiram a capacitação. O Ministério da Ciência e Tecnologia deve incluir nessa reforma a adaptação de textos e documentos oficiais enviados por internautas em plataformas online, onde alunos do ensino médio, técnico e acadêmico poderiam fazer a 'tradução" a uma linguagem mais acessível , com supervisão de docentes e ganho de vantagens curriculares.
Ver todas as redações Corrija suas redações com a nossa plataforma! Clique aqui!