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Gordofobia e o culto ao corpo padrão

“Você não quer mais ser motivo de piada?” “Não quer mais sofrer ao comprar roupa?” “ Quer voltar a se sentir bonita?”. Discursos como estes são constantemente utilizados como estratégias de marketing para atrair público para as indústrias de dieta e emagrecimento. Nesse sentido, de maneira mais ou menos explícita, desnudam uma face indiscutivelmente preconceituosa da nossa sociedade em relação ao corpo gordo, na medida em que é visto sempre de maneira adversa e contrária aos modelos considerados ideais, como algo a ser "melhorado". Sob esse viés, entre os fatores atrelados a essa problemática destaca-se não só o papel da mídia na patologização e na consolidação da gordofobia, como também a negligência estatal no que cerne as limitações infraestruturais.


Em primeira instância, é mister analisar criticamente o modo com que o peso de alguém é constantemente usado como indicador de saúde e o fator “mídia” nesse processo. Assim, na tradição greco-romana, por exemplo, regida pelo mote “corpo são, mente sã”, o corpo magro e musculoso significava racionalidade e moderação dos hábitos, enquanto, ser “corpulento” representava uma entrega demasiada aos prazeres. Nesse contexto, em uma sociedade marcada pela influência do cinema e televisão, e recentemente, das redes sociais, ao exibirem modelos de copos magros como exemplos de bonitos e saudáveis, acabam contribuindo para a perpetuação do mote aristotélico, na medida em que somos constantemente abordados com exemplos de corpos bonitos ideais e saudáveis, e o corpo acima do peso nunca está entre eles, visto, portanto como “feios” e “doentes”, além da desconsideração dele como um corpo que pode ser admirado.


Outrossim, além da pressão estética a aversão ao corpo gordo alcança níveis estruturais que limitam a vida, o desenvolvimento e o bem-estar do indivíduo. Sob perspectiva, o sociólogo alemão Karl Mark afirmava, em seus discursos, que a economia determina a sociedade. Atualmente, no Brasil, é possível constatar a acertada de sua afirmação: a sociedade em todos os seus níveis sejam eles a moda, serviços de transporte ou ambiente de trabalho, repercute o ideal econômico dominante, principalmente no ramo da indústria midiática, na medida em esses espaços não são adaptados para acolher pessoas que destoam do “tecido social” imposto por relações, sobretudo, comerciais. Por conseguinte, em um mundo modulado conforme o molde da magreza, navegar pelo cotidiano traz desafios de diversas naturezas a pessoas que estão acima do peso, como catraca de ônibus, restaurantes, assentos de aviões, ou simplesmente no ato de comprar uma roupa, já que estes e outros ambientes não estão preparados, ou simplesmente preocupados, em atendê-las.


Portanto, cabe ao Ministério da Saúde, em consonância com órgãos midiáticos, viabilizar programas e campanhas de conscientização a respeito do ato de transformar em anomalia o indivíduo que está acima do peso,por meio das redes sociais e tendo como porta-vozes influenciadores e ativistas nacionais que lutam pela causa, não como uma “romantização” da obesidade, mas para que, paulatinamente, o corpo gordo se desassocie da imagem de um corpo doente. Ademais, é dever do Estado trabalhar para a inclusão social dos cidadãos que se encontram acima do peso, por meio de políticas públicas que garantam adesão destes aos espaços de convívio social, como, por exemplo, a exigência das empresas de companhia aérea e dos responsáveis pelos transportes públicos de disponibilizarem assentos e catracas (no segundo caso) adaptados, com intuito de tornar o cotidiano desses indivíduos o mais confortável possível. Com essas ações, será possível a construção de uma sociedade cada vez mais justa e próxima de alcançar o bem-estar social.

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