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ENEM 2019 : Democratização do acesso ao cinema no Brasil

ACESSO AO CINEMA: UM RETRATO DA DESIGUALDADE BRASILEIRA


           Durante a maior parte do século XX, segundo Zygmunt Bauman, o acesso à cultura serviu de parâmetro para distinguir classes sociais. Frequentar teatros era, nesse período, a representação do alto poder aquisitivo do indivíduo. No Brasil hodierno, o acesso ao cinema tem mostrado algo semelhante. Enquanto os mais ricos possuem acesso irrestrito a ele, os mais pobres são limitados a pouco ou a nenhum acesso. Para modificar essa realidade, medidas paliativas são insuficientes, tornando-se necessárias mudanças estruturais no país, a fim de alcançar a democratização do acesso ao cinema.


         Nesse sentido, o maior obstáculo é a concentração de renda estruturada no Brasil. Conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019, apenas 10% dos cidadãos mais ricos concentram, aproximadamente, 40% da renda total do país.  Com isso, a mobilidade social é prejudicada, aumentando, assim, as desigualdades. Os cinemas, por simples conveniência mercadológica, denotam essa diferença: mantêm-se nas regiões mais ricas e desenvolvidas, em detrimento das demais. Consequentemente, as classes mais vulneráveis encontram dificuldades, sobretudo relativas a distância e ao custo, para acessar às grandes telas.  Democratizar o acesso ao cinema, portanto, implica interferir na estrutura econômica vigente, atenuando as dessemelhanças por ela impostas.


            À vista disso, embora essencial, essa reestruturação pode levar décadas. Por essa razão, é importante que, concomitantemente a ela, medidas paliativas sejam adotadas. Dentre elas, o cinema popular destaca-se devido a sua relação custo-benefício. Isso pois, com um baixo investimento por parte, por exemplo, de um município, dezenas de munícipes podem assistir a filmes gratuitamente em praças, parques e demais ambientes públicos. Como fizeram os produtores do filme “Bacurau”. Após filmar o longa-metragem na cidade de Barra, no interior do Rio Grande do Norte, a equipe retornou ao vilarejo para exibir aos moradores o filme finalizado. Com um telão improvisado e outras ferramentas, a maior parte do povoado teve seu primeiro contato com o cinema. De fato, está alternativa não revolve o problema, mas mitiga a desigualdade à medida que a reestruturação ocorre.


          Destarte, é imprescindível que o Governo Federal tome atitudes para descentralizar a renda no país, a partir do aumento da carga tributária das parcelas mais ricas da população, bem como da elevação da carga cobrada sobre a herança. Dessa forma, as riquezas produzidas pelo povo retornarão a ele na forma de políticas públicas que reagirão contra a desigualdade socioeconômica, corroborando a democratização do acesso ao cinema e o desenvolvimento social. Igualmente, cabe aos Governadores dos Estados buscarem investimentos que subsidiem a implementação dos cinemas populares nos municípios de casa Estado, principalmente naqueles mais desfavorecidos. Com isso, enquanto a mudança efetiva não ocorre, as diferenças serão minimamente amenizadas. Assim sendo, talvez um dia a concepção de Bauman torne-se obsoleta, e as classes sociais não mais possam ser diferenciadas pelo acesso ao teatro; tampouco ao cinema.

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