Enriqueça seus textos com mais algumas músicas brasileiras para redação. Aumente seu repertório sociocultural e elabore argumentos consistentes com base na nossa cultura popular!

No início deste mês, publicamos um artigo com sete canções para você usar como repertório sociocultural nas suas redações. Hoje, retomamos esse assunto para trazer mais algumas músicas brasileiras para redação. Assim, você ampliará seus conhecimentos sobre essa forma de arte tão valorizada mundialmente, além de ter insights sobre outras possibilidades de abordar temáticas diversas em seus textos.

Então, coloque os fones de ouvido e aproveite para ouvir todas essas músicas brasileiras na íntegra. Pode confessar: estudar assim é unir o útil ao agradável, não é?

1 – Que país é este?

A pergunta-título desta música, gravada pela banda Legião Urbana em 1987, é sempre lembrada e facilmente reconhecida por pessoas de qualquer geração. Diante de fatos absurdos ou inusitados que acontecem no Brasil, diversas vezes nos perguntamos: Que país é este? Embora tenha sido lançada quase no final da década de 1980, a canção, composta por Renato Russo, foi escrita em 1978. Naquela época, o autor ainda pertencia à banda Aborto Elétrico, que posteriormente se separou, gerando duas outras bandas reconhecidas na cena rock nacional (Legião e Capital Inicial).

Em uma enquete no IG, em 2013, foi eleita a música de protesto mais marcante do país. Certamente, e infelizmente, seus versos ainda soam muito atuais.

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?

Quando foi escrita, o Brasil estava sob a ditadura militar, com Ernesto Geisel na presidência. Naquele ano, a Justiça responsabilizou a União pela morte de Vladimir Herzog. O General João Batista Figueiredo fora eleito pelo colégio eleitoral como novo presidente e seguiu dando andamento a uma série de ações cujo objetivo era realizar transição lenta, gradual e segura para a democracia. Que país é este? foi lançada no mesmo ano em que a Assembleia Constituinte estava sendo discutida no Congresso, dando origem à nossa Constituição de 1988.

De fato, essa canção pode embasar discussões de cunho político, bem como falar da questão de desrespeito aos biomas e aos povos originários, situação que vivemos hoje em dia com as queimadas e a ganância advinda do agronegócio. Assim, afirma-se que “o sangue anda solto, manchando os papéis”. Sequencialmente, menciona que o Brasil vai ficar rico “quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”.

2 – Aluga-se

A solução pro nosso povo eu vou dá
Negócio bom assim ninguém nunca viu
‘Tá tudo pronto aqui é só vim pegar
A solução é alugar o Brasil
Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá pra alugar ah ah ah ah
Composta por Raul Seixas e Cláudio Roberto Andrade de Azevedo, esta música brasileira foi sucesso e regravada por outros artistas, como os Titãs. Assim como a anterior, mesmo sendo de 1980, ainda reflete a realidade do Brasil. Dessa forma, serve como referência para demonstrar as características de uma política econômica voltada à valorização do que é “de fora” – uma fator propulsor para o chamado “complexo de vira-lata” que os brasileiros são acusados de possuir. Além disso, os trechos mostram o olhar predatório que investidores estrangeiros lançam sobre nossos abundantes recursos naturais. Versos sobre o fato de ter vista pro mar (o Atlântico como ponto estratégico para comércio) e a Amazônia mostrada como “jardim do quintal” reforçam essa ideia.

3 – Quanto Vale?

No próximo dia 5 de novembro se completarão 5 anos do rompimento da barragem da mineradora Samarco no município de Mariana-MG. A enxurrada de lama deixou um rastro de destruição, muitas famílias desabrigadas e pessoas perderam a vida na tragédia. Além disso, os impactos ambientais foram incalculáveis. Em março de 2016, alguns meses depois, o grupo Djambê lançou o clipe da música Quanto vale? , composta logo após o “acidente”. Na época, houve mais de 1 milhão de acessos à canção na internet. Segundo o grupo, são destacados alguns dos principais personagens dessa história: empresários, políticos, imprensa e as vítimas.

Monstro desceu corredeira (dizimando tudo a sua frente)
Não tem medo de ninguém (de investigação nem de autoridade)
Quase toda realeza (através do financiamento de campanha)
Foi comprada com vintém

Sai da frente camarada, que lixo tóxico não dá pra beber
Querosene nem gelada, olha o nível dessa gente procê vê!
A TV não fala nada, mas deles a gente devia esperar o quê?
Tragédia desenfreada! E morre bicho, e morre gente e gente tentando esconder

Assim, novamente temos uma música brasileira que retrata interesses políticos em detrimento de valores humanos e sociais, bem como a questão da impunidade e o papel da mídia diante disso tudo. Vale a pena ver e ouvir!

4 – Haiti

Em 1993, Caetano Veloso e Gilberto Gil lançaram Haiti, uma espécie de rap que denuncia a miséria e as desigualdades sociais e raciais no país. Assim, muitos temas perpassam a letra da música, entre eles podemos destacar: a escravidão e o seu legado na nossa sociedade, com a marginalização do cidadão preto, a violência policial sobre esse segmento, privação do ensino básico, incoerência nos discursos “pró-vida”, entre outros. Além disso, é uma letra que chama a atenção por sua estrutura gramatical, sintática e semântica, sendo algo de estudos da área de Letras e Literatura. É a música brasileira mais uma vez mostrando seu papel fundamental na nossa cultura!

E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção
Da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê
Tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal
O velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
* A música faz referência ao massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, que pode ser mencionado também em alguma temática que trate da crise carcerária no Brasil.

5 – Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Trata-se de mais uma música brasileira que retrata a questão racial no Brasil, podendo ser relacionada com a anterior ao falarmos sobre essa questão em uma redação. Novamente, temos a denúncia do tratamento violento que a polícia tem com a população negra, reflexo do preconceito que ainda reina entre nós, e não só no Brasil. Em 2020, a violência de policiais que assassinaram negros gerou protestos nos Estados Unidos e no mundo, levantando o grito de que #VidasNegrasImportam.

é mole de ver
que em qualquer dura
o tempo passa mais lento pro negão
quem segurava com força a chibata
agora usa farda
engatilha a macaca
escolhe sempre o primeiro
negro pra passar na revista

todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Ainda, a canção reforça o papel da mídia ao dar mais valor a fofocas sobre artistas do que denunciar problemas graves, como a disseminação da AIDS na África, destacando que a importância dos fatos se dá por uma hierarquia preestabelecida sobre o que é importante ou não noticiar.

6 – Esmola

Essa música da banda Skank é de 1993. Naquele ano, o país vivia uma grave crise econômica. Em agosto, a moeda passou a chamar-se Cruzeiro Real, sob o Ministério de Fernando Henrique Cardoso, que, mais ao final daquele ano, anunciou o plano de estabilização econômica, que deu início à mais uma nova moeda, o Real.

Quem viveu naqueles tempos lembra como era difícil a vida do brasileiro, com grande miséria da população, muitos desempregados que formavam filas imensas atrás de vagas. Desse modo, era recorrente encontrar pessoas vivendo nas ruas e pedindo esmolas nos sinais. Assim, a canção reflete exatamente esse momento da história.

Uma esmola pelo amor de Deus
Uma esmola, meu, por caridade
Uma esmola pro ceguinho, pro menino
Em toda esquina, tem gente só pedindo
Uma esmola pro desempregado
Uma esmolinha pro preto pobre doente
Uma esmola pro que resta do Brasil
Pro mendigo, pro indigente

Esperamos que vocês tenha curtido mais essas dicas de músicas brasileiras. Lembre-se de que a nossa cultura musical é muito rica e em todos os ritmos encontramos letras que nos ajudam a entender nossa sociedade e nosso país. Portanto, explore outras canções, de várias décadas para o repertório de suas redações. Sempre é possível conhecer mais sobre nós e nossa história por meio da arte!

QUERO APRENDER REDAÇÃO!

 

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