O tema da redação de 2019, Democratização do acesso ao cinema no Brasil, deixou muita gente surpresa e dividiu opiniões, isso porque, para alguns especialistas, a temática foi específica demais e um tanto quanto descolada da realidade de alguns alunos, já para outros entendidos do assunto, a proposta foi relevante e vem de encontro a uma real necessidade em nosso país, mesmo que não em caráter prioritário, uma vez que temos vários outros problemas mais sérios a serem discutidos e solucionados.

Um assunto voltado à democratização dos meios culturais já era esperado para este ano, pois é inegável que apenas uma pequena parcela da população tem acesso a atividades de cultura como teatro, exposições, cinema, literatura, música e movimentos artísticos em geral, quer seja por razões geográficas quer seja pelo valor agregado a essas atividades. Segundo um dos próprios textos motivadores deste ano, apenas 17% da população brasileira frequenta o cinema. Num país de mais de 200 milhões de habitantes, esse é um número bastante baixo, mesmo que durante os sábados você veja no cinema do shopping da sua cidade (caso haja) aquelas filas imensas.

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Havia muitos caminhos a serem seguidos para a produção textual. Apesar de aparentemente ser um tema menos abrangente, falar de acesso ao cinema permitia que você construísse sua argumentação sobre pilares diferenciados, sempre alinhados à proposta central, é claro, pois isso é fundamental para a conquista de uma boa nota final.

Uma das possibilidades seria encaminhar a redação para o fato de que filmes são também uma expressão de cultura e que permitem o conhecimento do mundo, usos, costumes e história por meio da ficção, sendo assim, o direito deveria ser de fato assegurado a todos, independentemente da idade, condição ou aspectos geográficos.

Ao pensarmos nas pequenas cidades, aquelas que frequentemente têm menos de dez mil habitantes registrados, não há salas de cinema disponíveis e muitas pessoas nunca nem mesmo assistiram a um filme nas grandes telas, por que isso ocorre? Seria o cinema um direito apenas das grandes metrópoles? Sabemos que não, então qual seria a justificativa?

No caso de pessoas com necessidades especiais, como surdos, por exemplo, apenas filmes com legenda são o suficiente para transmitir toda a ideia do enredo? E no que diz respeito às pessoas cegas, apenas o áudio é o bastante? É possível termos compreensão completa da história e da mensagem de um filme ao somente lermos ou ouvirmos as falas? Com relação à acessibilidade, há ainda mais um ponto relevante que poderia constar em sua redação: pessoas com qualquer dificuldade com relação à mobilidade (cadeirantes, usuários de muletas, bengalas ou andadores) conseguem frequentar um espaço que usualmente é construído no formato de degraus? É possível imaginar que, para essas pessoas, há a primeira fileira, mas a experiência é exatamente a mesma na primeira e na última fileira da sala de cinema?

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Cidadãos portadores de autismo também poderiam integrar seus argumentos. Uma criança ou adulto autista, diante das últimas tecnologias sonoras, com capacidade de até mesmo fazer tremer a estrutura física das salas, suportaria uma sessão completa sem uma possível crise? Na contrapartida, diminuir o nível de som das salas de cinema não afetaria todos os outros espectadores que não carregam necessidades especiais? Como então isso seria democrático?

De toda a produção cinematográfica mundial, apenas alguns filmes (frequentemente americanos ou britânicos) são disponibilizados nos cinemas brasileiros, tudo isso pensando na possibilidade de grande bilheteria, o que gera lucro tanto para as redes de cinema quanto para as produtoras em si. Discutimos acima que o cinema é uma forma de contato com o mundo e sua cultura, mas se temos acesso a apenas uma fonte de produção, não estamos sendo lesados em nosso direito sem nem ao menos termos real consciência? Por que outras pessoas têm escolhido o que nós assistimos? E com quais critérios?

As plataformas de streaming disponibilizadas atualmente impactam de alguma maneira o acesso ao cinema e a produção cinematográfica como um todo? De que forma? Como as grandes redes de salas de cinema, como Cinemark e PlayArte, com suas experiências nada pessoais e democráticas, podem continuar sendo relevantes para a sociedade?

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E, claro, não poderíamos deixar de abordar o quesito valor de ingresso, argumento que certamente deve ter integrado uma grande parte das redações de 2019. Em grandes cidades, o ingresso (sem nenhum tipo de desconto ou benefício) chega a custar uma média de R$30,00 aos finais de semana. Considerando o salário mínimo atual de R$998,00 e o valor da cesta básica, com base em pesquisa realizada pela DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) em 18 estados, de R$482,40, em São Paulo (estado com valor médio mais alto) e de R$362,93 em Salvador (menor valor médio), o preço de R$30,00 faz sentido? É coerente pensar que uma entrada de cinema custe o mesmo que 10 quilos de arroz? 

Vejam como o tema abre um leque incrível de possibilidades de discussão, desde a mais óbvia até a mais aprofundada. Além da discussão, as propostas de intervenção também são várias e passam muito além do clássico “o governo deveria baixar o valor do ingresso e abrir mais salas de cinema em todo o país”. 

Com relação ao barateamento dos ingressos, quais financiamentos podem ser feitos a fim de baixar o preço final? Há possibilidades de parcerias? De que tipo? Escolas públicas, por exemplo, podem exibir aos finais de semana filmes? O que diz a lei a respeito desse tipo de exibição?

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Já sobre a acessibilidade, criar sessões específicas e especiais (como a Cine Materna, por exemplo, que permite que as mamães frequentem o cinema com seus bebês), com ajustes de som e espaço é uma boa ideia? Qual outra forma de tornar o cinema acessível para todos? Como essas sessões específicas impactariam o lucro das redes? Seria adequado e viável financeiramente?

Por fim, que outros espaços, além dos tradicionais, podem ser utilizados para que pessoas ao redor do país inteiro tenham uma experiência cinematográfica? Nesse sentido, já temos iniciativas de bancos e empresas privadas que viajam o país exibindo filmes em telões dentro de caminhões, o que tem trazido bons resultados.

E você? Qual caminho você escolheu para construir seu texto? Que soluções você propôs? Conte para a gente, vamos gostar muito de dividir ideias. 

QUERO USAR ESSE TEMA!

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